| Divulgação |  |  | Direto de Neverland |  |
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Minha missão
pro Palma: ver como o Rei do Pop ressuscita nos centros populares, após seu
calvário e morte tão patéticos e suspeitos.
Centro da cidade, duas horas da tarde de uma quinta-feira.
Um sax triste e abafado faz ecoar suas notas na estação de metrô do Largo da
Carioca. Desemboco na calçada suja, onde vejo um senhor negro tocando seu
instrumento com um jeito grave e solene. À sua frente, um chapéu com algumas
poucas moedas e notas. As pessoas vão e vem diante dele, e ninguém parece ter
tempo para ouvi-lo interpretar Ben, a
bela canção e mega sucesso dos Jacksons Five.
De repente ouço gritos ansiosos vindos de todos os cantos: “Coletânea
Michael Jackson! Coletânea Michael Jackson, lançamento!” Diante de
mim,ambulantes maltrapilhos tentam pescar os passantes com suas ofertas
pirateadas . Um deles se aproxima oferecendo o produto, que, segundo ele me diz, quase aos berros, “ saiu do
forno agora mesmo!”.
Um ambulante concorrente, lutando por seu espaço, me chama
para um canto e desacredita o colega, dizendo que a tal coletânea, também anunciada como o novo do Michael (póstumo? psicografado?), não passa de uma velha
compilação que apenas mudou de
nome: “Golpe de marketing, caô”, ele me revela, com desprezo.
Este é o décimo-segundo DVD do cantor a entrar no circuito
dos camelôs depois da morte do cantor. Enquanto houver demanda, a fonte não
pode secar, mesmo que para isto se inventem
novos CDs.
| PEDRO SCHPREJER |  |  | Rei do Vídeo |  |
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| Três semanas após sua inesperada morte, Michael Jackson
ainda domina as calçadas encardidas e as ondas sonoras do Centro do Rio. Entre
a Cinelândia e a Uruguaiana, não se anda cinquenta metros sem esbarrar num
televisor exibindo seus shows ou ouvir suas musicas nos alto falantes dos camelôs.
As mais tocadas são Beat It e Billie Jean – também eleitas em todos os
cantos do mundo como seus dois maiores sucessos (ambas escritas por ele).
Desde o dia seguinte à definitiva ida do Rei do Pop para a verdadeira Neverland, crianças, adultos e velhos compram vorazmente todos os DVD’s, CD’s e camisets com
imagens do ídolo. O Rio de Janeiro segue o mundo no desesperado resgate
comercial deste ídolo quase falido, quase mulher, quase branco. Apenas na
primeira semana após a sua morte, os discos de Michael já haviam vendido, só
nos Estados Unidos, 422 mil cópias, 40% do que tudo que ele havia vendido no
ano todo. No Japão, os CD’s e DVD’s se esgotaram na própria quinta feira que
levou o inventor do Moonwalk.
“Só hoje já vendemos mais de mil CDs dele. Tivemos que pedir
outra leva”, exagera o vendedor da banca de jornal da Carioca, onde DVD’s e CD’s
ocupam quase todo o espaço normalmente reservado a revistas, e homens
engravatados ou não escolhem seus DVD’s eróticos como Carnaval
Delicioso 2009 e Lacraia, a Periguete,
que custam a partir de R$6. O fato é que, mesmo em meio a esta ampla gama de
produtos sofisticados, Michael Jackson encabeça com folga a lista dos mais
vendidos. No momento, de acordo com o jornaleiro, o único concorrente de peso, é
uma compilação de quadrilhas de São João.
As obras são
deixadas nas bancas em sistema de consignação. O distribuidor destes DVDs
ou CDs – quase todos piratas – é identificado apenas como o rapaz.
Desconfiados, os ambulantes não gostam de falar com jornalistas, nem de
responder perguntas sobre a origem dos produtos, então finjo que sou mais um comprador
em potencial.
Numa nova banca, dois funcionários cochicham alguma coisa e
um deles liga uma grande TV de plasma virada para a rua. Em poucos minutos,
dezenas de passantes deixam para trás seus serviços e entregas para poder
assistir ao Rei do POP, hipnotizados diante das coreografias e pirotecnias do
show. Com um microfone em uma mão e o controle em outra, o jornaleiro anuncia: “Vamos
chegando! DVD do homem é só 10 reais”.
Parto para outra. Na pequena banca da Rua Rodrigo Silva, já
não resta nada do Michael Jackson. Ali, o rapaz estásendo aguardado com mais mercadoria.
| PEDRO SCHPREJER |  |  | Retrato do artista |  |
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| Ao lado da banca, um
desenhista de rua vende um retrato do cantor de Thriller, ainda com o rosto de
meados da década de 80, por R$80. Ao lado da obra estão os retratos do ex-Big
Brother Alemão e do ator Jean Claude Van-Damme, entre outros famosos.
Sigo caminho. Do outro lado da Avenida Rio Branco, na Banca
do Giuseppe, não há nada sobre Michael Jackson nas prateleiras. Pergunto por um
DVD do artista e um seco e enfadado Giuseppe me diz que “não tem”. Giuseppe parece ser o único jornaleiro
que não está lucrando com os produtos piratas de Jackson. A banca vende jornais
estrangeiros como o El Pais e o The Guardian e revistas caras como a Harvard
Busines Review, e talvez estes produtos não fiquem tão à vontade ao lado do
glamur esfuziante do Rei do Pop.
No camelódromo da Uruguaiana, há dias que os passantes se
espremem diante de um minúsculo televisor sobre um um banco de praça, para ver
Sua Majestade fazendo piruetas e soltando seus belos gritos. Na telinha, os Jacksons 5 cantam o
grande sucesso I Want You Back. O
povo assiste absorto e alguns até arriscam um swing sutil.
| PEDRO SCHPREJER |  |  | Mundo dos piratas |  |
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| Mais adiante, em outra banca de DVD’s, um homem paga meros
R$5 por um piratão do show de Michael
em Bucareste, na Romênia, feito em 1989. Ao lado, um casal escolhe qual vai levar: “Mas esses dois eu já tenho,
amor”, explica o homem.
No camelô seguinte, camisas masculinas e femininas
estampadas com imagens do Rei do Pop são vendidas por R$10, ao lado de outras
peças que trazem figuras como Obama, Bob Marley e um tal de Obamis – um mistura
do presidente americano com o saudoso comediante Mussum. Dentre tantas
celebridades, Michael também vem sendo o campeão de vendas.
Na pequena barraca Oficina
do Som - O Rei do Flash, dedicada à Black Music, um policial militar
fardado elogia a coletânea, que diz
ter comprado. “Ele era um gênio”, comenta. O vendedor concorda. Uma mulher comenta com outra “Mas também
tinha este daqui, conhece?”, mostrando um DVD de James Brown
Agora em outra barraca, uma TV gigantesca
passa um DVD, mas desta vez não é do ídolo morto, e, sim, do
pagodeiro Arlindo Cruz. Sinal de que, em dias tão monotemáticos, ainda há
alguma diversidade na Uruguaiana. Cláudia, a vendedora, me diz preferir Arlindo,
“mas o Michael tá vendendo mais, mesmo” admite. O mais surpreendente de tudo é
que O Tamborzão do funk, onipresente até cerca de três semanas atrás,
praticamente sumiu das barracas de CD’s.
Entre tantas referências a Michael Jackson, só falta mesmo o
próprio baixar por aqui em carne e osso, mas não é que, de repente, em frente à
pequena banca que segue exibindo o concerto dos Jacksons 5, ele se materializa,
direto de Neverland? Peraí, este aqui não é veio de Neverland, não. Tudo bem
que ele usa peruca, uma luva só, óculos, chapéu e a dispensável máscara cirúrgica,
mas do original ele só tem os
apetrechos e a pele pálida. Não dança, não canta, se limitando a acenar e
cumprimentar as pessoas que se aproximam, como embaixador do novo habitante do
Além. Mas, cheio de boa vontade, o
povo não parece dar bola à tosqueira daquele sósia pobre e carioca, e muitos
fazem questão de tirar fotos com ele. Afinal de contas, branco ou preto, criança
ou adulto, em família ou sozinho, Michael Jackson agora é o rei do Centro da
Cidade.
Dois lançamentos de DVD’s piratas, porém, prometem ameaçar a
sua majestade nos próximos dias. Um deles é de outro rei, Roberto Carlos, no
seu show de 50 anos de carreira, no Maracanã. Apenas dois dias depois do
concerto, o DVD já está sendo anunciado freneticamente no camelódromo. Outro
forte concorrente é o oportunista Rota Comando: o Filme, longa sobre a temida
força policial paulistana, que pretende repetir o sucesso de Tropa de Elite e afins.
Brinde do Palma: O momento em que o Rei do Pop realmente esquenta a cabeça. Estrelando um comercial da Pepsi cheio de explosões e pirotecnia, tudo dá errado num dos takes, e Michael pega fogo. Muitos dizem que este traumático acidente agravou suas paranóias e o levou às tantas futuras operações e transformações que parece ter sofrido.
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