BRASIL
Vale quanto reza
26/11/2006
Guilherme Freitas

Reproduções
Templo lotado: "Pare de sofrer!"
"Pare de sofrer", convidam os letreiros de dezenas de igrejas evangélicas que pontilham o trajeto do Centro ao subúrbio do Rio. Em Del Castilho, toda terça-feira, milhares de pessoas atendem ao chamado e lotam o maior templo da América Latina - a suntuosa Catedral Mundial da Fé, da Igreja Universal, com capacidade para mais de 10 mil fiéis - na Sessão do Descarrego. Para alguém que nunca foi à missa e não suporta multidões, a noite guarda um desafio duplo. Busco refúgio num canto da arena e sento ao lado de um senhor barrigudo que cochila placidamente, meu irmão espiritual.

As muitas histórias que já ouvi sobre a Sessão do Descarrego - os programas de TV da igreja anunciam de exorcismos a curas milagrosas - não poderiam ter me preparado para o que encontro no templo: famílias falantes, casais de mãos dadas, trabalhadores recém-saídos do expediente, num clima tranqüilo de quermesse. O que os une é um mistério para mim, mistério que começa a ser desvendado pontualmente às 20h, quando todas as luzes da Catedral Mundial da Fé se apagam.

De uma porta lateral, brota uma fileira de obreiros, de roupas e cortes de cabelo uniformizados. Trazem para o centro do templo uma dúzia de postes acesos, que são dispostos na forma de um corredor. Surge o pastor, usa branco dos pés à cabeça. Numa voz estridente, convoca os fiéis a atravessarem o Corredor das Luzes, trazendo papéis onde foram instruídos, antes do culto, a anotar os problemas que afligem suas vidas.

"Sai doença!"

 

Catedral da Fé: 10 mil fiéis por noite
Uma enorme e silenciosa fila em espiral se forma da entrada do corredor à extremidade da arena, avançando lentamente, enquanto dois pastores se revezam ao microfone. "Sai doença! Dívida! Casamento infeliz!", grita um. Quando este se cansa, o outro assume, com uma retórica dirigida às mulheres: "O marido dela tá desempregado! O filho dela tá na droga!". Ao passarem pelo corredor, os fiéis respondem com gritos extasiados e atiram os papéis ao chão, com raiva.

Depois de um momento de hesitação, decido não atravessar o corredor. Há algo no fervor e na seriedade dos fiéis que me inibe. Tento entender o que leva as famílias, casais e trabalhadores que vi antes do culto a se transformarem naquela massa anônima de suplicantes, mas falho. Fica apenas a impressão de que é o mesmo impulso que leva um tipo diferente de pessoa a dançar por horas seguidas para esquecer um amor frustrado ou tomar um porre redentor depois de um dia ruim no trabalho. Todos precisamos de um pouco de catarse de vez em quando.

Depois que o último fiel atravessa o corredor, as luzes se acendem e começa o exorcismo. Por toda a arena, espocam gritos agudos de pessoas que, como o pastor se apressa em explicar, estão submetidas a entidades malignas que se recusam a deixar seus corpos mesmo depois do ritual das luzes. São trazidas da platéia para o palco pelo exército de obreiros e atendidas pelos pastores, que põem a mão sobre a cabeça do possuído e o libertam com poucas palavras.
Um dos possuídos é esquecido na arquibancada. Seus gritos monótonos serão ouvidos periodicamente ao longo da próxima hora, como um metrônomo a marcar o compasso do culto.

"Fogo no Diabo!"

 

Hora do dízimo: pastor pede RS 2007
Uma banda animada toma o palco, marcando o fim do primeiro e mais dramático ato da Sessão do Descarrego. Acompanhado em uníssono pela platéia, o pastor entoa uma versão evangélica de um conhecido proibidão do funk carioca: "Fogo no diabo da cabeça aos pés/ Quem dá fogo santo é Jesus de Nazaré". A penumbra opressiva e a pregação exaltada do início do culto dão lugar a luzes brandas e música suave. É hora do dízimo.

O pastor chama uma mulher ao microfone para dar um testemunho sobre a mudança operada pela religião em sua vida. Numa fala dramática, lista o compêndio de pecados que era sua rotina pagã: bebia, usava drogas, traía e era traída, enfrentava todo tipo de drama familiar. A sorte virou quando deixou o emprego e começou a freqüentar a igreja.

- Doei toda a indenização que recebi e ainda vendi alguns bens. Fiz o sacrifício, mas fui recompensada.

Tomando essa lógica de sacrifício e recompensa como mote, o pastor conclama os fiéis a fazerem doações, com uma ressalva:

- Ninguém é obrigado a dar dinheiro. A oferta é um sacrifício e quanto maior o sacrifício, maior a recompensa.

A massa de fiéis inicia nova peregrinação rumo ao centro do templo, dessa vez para deixar dinheiro em sacos de tecido aveludado cor de vinho segurados pelo batalhão de obreiros. O casal à minha frente tem uma discussão muda sobre o dízimo: o homem, um tipo bonachão de rabo-de-cavalo, levanta ao primeiro comando do pastor, mas a mulher toca seu braço. Trocam um olhar significativo, insuficiente para desanimá-lo.

Enquanto ele desce as escadas rumo aos sacos de dinheiro, o pastor fala sobre um grande evento a ser realizado em dezembro, para o qual é esperado "o maior dos sacrifícios". Comenta que a conta de luz da igreja chegou a R$ 99 mil no mês passado e põe-se a enumerar cifras, como quem tem uma visão:

- No mês que vem, doe R$ 1 milhão, R$ 500 mil, R$ 10 mil, R$ 2.007, no mínimo, para garantir um ano bom. Se você estiver em dificuldades, doe R$ 2 mil, R$ 1 mil, mas não menos de R$ 500, porque o sacrifício tem que ser grande.

Deus me escolheu

 

Guilherme Freitas
Diploma de fiel: repórter salvo!
O evento de dezembro é mencionado diversas vezes ao longo do culto, uma das práticas usadas pelo pastor para estimular o retorno dos fiéis. A principal é a distribuição de brindes: durante a noite, ganho um lenço ungido, que devo esfregar na cabeça de toda a família e trazer de volta no domingo; um véu abençoado, que será levado a Israel para arder numa fogueira santa em dezembro; e o diploma de Escolhido de Deus, que recebo, sem passar por teste algum, de um dos obreiros. Sou instruído a trazer o papel no culto do dia seguinte.

Ainda estou distraído com o diploma - meu nome está "arrolado nos céus", garante - quando sinto um puxão na mão direita, que me força a ficar de pé. De olhos fechados, uma senhora murmura palavras de devoção e aperta meus dedos com força. O pastor anuncia: é a última oração da noite. Antes que eu possa reagir, um rapaz toma minha mão esquerda e começa a rezar também. Toda a arena se une numa corrente. Sem alternativa, junto-me a eles, dublando o Pai Nosso sem convicção. Procuro meu bocejante companheiro do início do culto, mas esse já deve estar longe.

Encerrada a oração, o pastor convida os fiéis a darem depoimentos para o programa de TV da igreja. Duas adolescentes que aguardam na fila mal contêm os risinhos nervosos de excitação por estarem prestes a aparecer diante das câmeras. O pastor se retira e os obreiros recebem os fiéis para os últimos conselhos e exorcismos tardios. O chão do templo está coberto pelos papéis onde os fiéis anotaram seus problemas. Sujos e pisoteados, são o réquiem da noite: dívida, doença, desemprego - preocupações urgentes, nada metafísicas, que levam milhares de pessoas a buscar uma solução onde quer que ela se ofereça. Pergunto a uma das serventes que varrem o templo o que é feito dos papeizinhos:

- Queima!

A caminho da saída, um sujeito estirado na última fileira da arena me pede dinheiro para voltar para casa. Dou R$ 1, ele argumenta que a passagem custa R$ 1,90. Pergunto se deu seu dinheiro todo para a igreja, e ele me olha como se eu tivesse dito a coisa mais estúpida do mundo.

- Tenho que pagar o ônibus, cara. E Deus? Vai querer dinheiro pra quê?

 
 
 
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