BRASIL
Aleluia, brother!
18/12/2006
Vivian Rangel

Fotos de Vivian Rangel
Modernidade: a prancha é o púlpito
Esqueça a imagem da crente de saias longas, Bíblia na mão e vocabulário arcaico. Na Bola de Neve Church, os brothers tatuados, bronzeados e parafinados passam a noite entre o rock e o reggae, dropando com Jesus. De frente para a praia da Barra da Tijuca, no Rio, os surfistas convertidos contam como deixaram para trás o álcool, a erva maldita e as noitadas em nome de Jesus. Ouvem atentos os ensinamentos da pastora, que apóia sua Bíblia numa longboard usada como púlpito. No culto, pulam, abraçam-se, oram em línguas desconhecidas e atingem o clímax ao testemunhar uma chuva de ouro.

A orla da Miami carioca já está quase deserta às 19h de um domingo de verão. O dono do quiosque em frente ao templo observa, inconformado, os engradados de cerveja. Sem disposição para conversa, conta que há quase dois anos vê o templo lotado aos domingos, mas amarga a falta de clientes. E encerra o papo dizendo que respeita os fiéis abstêmios, “cada um na sua né?”. Mas desabafa:

- Tanto carro importado ai na frente. E eu não vendo nem coca-cola.

Os solos de guitarra e a empolgação dos fiéis, que cantam com a ajuda de um telão de videokê, indicam que o culto está começando. Subo as escadas atrás de uma loura alta de calça jeans justa, salto de oncinha e perfume francês. Procuro a última fileira, onde uma adolescente entediada balança o All Star e lança olhares de fúria para a mãe. São exceções. Os jovens do lugar vestem surf wear, choram, sacodem os braços, oram em posição muçulmana ou ajoelham-se, circunspectos, deixando à mostra tatuagens na altura do cofrinho. Dezenas de meninas exibem golfinhos e outros animais marinhos pouco acima do derrière. Também não faltam escritos com o lema da igreja, em inglês: “In Jesus we trust”. Tento parecer invisível, mas um dos jovens não resiste e segura minha mão enquanto ora de olhos fechados. Sou uma das ovelhas perdidas da noite, e não faltarão fiéis dispostos a acolher a descrente.

"Precisamos evangelizar até o poste"

 

Pastora em ação: Sai, Nosferatu!
Às boas-vindas, sucedem-se notícias sobre o sucesso da igreja, fundada há sete anos, que já soma 20 mil fiéis pelo litoral brasileiros. A Bola de Neve tem sedes de norte a sul do país, em cidades como Itacaré (BA), Guarujá (SP) e Blumenau (SC). É o início do show da pastora: uma mistura de stand up comedy, herança gospel e oratória dos milagres. Falando com sotaque paulista diante do rebanho carioca, discursa sobre baladas para minas e bros sem causar incômodo. Nem mesmo quando condena as noitadas, o álcool, as pegações e, principalmente, os preguiçosos que têm vergonha de evangelizar em todos os lugares.

Empolgada, a pastora exalta a divulgação da palavra num programa de TV comandado pela ex-modelo Luciana Gimenez, famosa por ter procriado com o stone Mick Jagger.

- Temos chamadas no Superpop e nosso site está bombando! O evangelismo mais eficaz hoje é a mídia. Mas ninguém pode ficar parado, não pode ter vergonha de dizer que é crente. É preciso pregar enquanto pega onda, na faculdade e em casa. Precisamos evangelizar até o poste! - conclama.

A igreja pára quando um fiel atrasado atravessa as fileiras e arranca risos da pastora. Ele é a síntese dos fiéis: bermudão, óculos escuros, chinelos arrastando. Sem constrangimento, como se estivesse chegando a uma festa, aperta as mãos dos amigos antes de sentar. Mas a seriedade volta com as perguntas sobre os problemas dos fiéis.

- Quem tá encalhada aí? Quem tá traindo, quem tá desempregado? Quem tá com o filho doente, com familiares na bebida, nas drogas? - pergunta a pastrora.

"Acaba com o Nosferatuuuu!"

 

Arte sacra: golfinhos de Jesus
Todos os presentes parecem assentir a pelo menos um dos transtornos. O remédio é fé na igreja, fé em Jesus e disposição para espalhar a palavra do senhor. Como prova, um casal sobe ao palco para dar o testemunho da mudança. São novos protagonistas da clássica cena da TV: “Agora que encontrei Jesus, estou longe das drogas, casado, com família feliz e finanças em dia”.

Com a promessa da salvação sacramentada – e sem essa de reino divino, porque a felicidade deve surgir ainda na terra – chega a hora do dízimo. Assistentes louras e bronzeadas organizam as filas e quase todos abrem a carteira.

- O valor do dízimo está claro no nome e na Bíblia. Dez por cento, em tempos gordos e magros. Deus sabe quem está burlando as regras.

Depois da advertência, o apelo:

- Get the fire! Para Deus enviar os negócios ao Pai! A cura aos pacientes! O fim das misérias! O fim do ataque do Diabo! Arranca o poder do diabo! Arranca, arranca, acaba com o Nosferatuuuu!

A hora da chuva de ouro

 

Bola Music: Rodolfo, popstar convertido
Assustado o Nosferatu, recolhido o dinheiro e lido o evangelho, quando começaria a cerimônia do pão? Para colocar ordem na música e nos gritos, a pastora sopra uma espécie de berrante – que uma consultora evangélica esclarece ser um chofar, instrumento usado pelos judeus para chamar a glória de Deus. O chamado tem motivo: é hora da chuva de ouro.

O relato é sobre a última vez em que o fenômeno aconteceu, num congresso evangélico. O pó de ouro, garante a pastora, cai em todos os lugares. Mais do que isso: a transmutação atinge a todos os metais. Relógios e jóias prateadas ganham banho dourado. Obturações novas brotam como pepitas. Com um grito, ela recebe o primeiro fiel que vê a palma das mãos douradas, um sinal de que a filial carioca da Bola de neve foi agraciada pelo fenômeno da douração. Em frente ao palco, o jovem supostamente dourado chora. Ao lado, uma menina em transe confere os anéis a cada minuto. Frustrada, não controla as lágrimas ao ver que o prateado continua prateado. Uma das encalhadas do início do culto vê nos dedos a certeza do milagre do ouro, mas as amigas não conseguem enxergar o brilho. Não há vacilo na fé: só vê quem acredita. E ela não se move quando a pastora convoca a fila dos incrédulos.

- Como pode a boca do pobre ficar cheia de ouro? Aqui na frente há um menino totalmente dourado. Vocês que não acreditam venham ver o menino abençoado. Seu cabelo e suas mãos estão repletos de ouro. Vocês que freqüentam o culto mas não crêem com o coração, levantem-se! Deus está neste lugar!

Levanto mais que depressa e assumo a vergonha de ser descrente. O grupo dos incrédulos é modesto, mas o empurra-empurra é grande para ver o jovem de perto. O menino está repleto de glitter multicor nos cabelos, e sua visão provoca gritos, choros, abraços e estupefação. Ninguém ousa duvidar que o pó brilhante seja menos que ouro em pó.

Na saída, um reggae incidental

A menina dos anéis prateados chora com a cabeça entre os joelhos. Uma mistura de gritos, murmúrios, uivos e balbuciar desconexo ensurdece a igreja: é a hora do falar em línguas. De olhos fechados e em silêncio, fiéis esperam mensagens no alfabeto dos anjos. É o ápice do culto: chuva de ouro e promessas em mensagens cifradas.

O som do chofar encerra as orações depois de três horas e quinze minutos. A banda começa um reggae incidental para as despedidas. Recados sobre novas células e futuros encontros. Parabéns para uma ovelha que faz aniversário e trouxe bolo para a igreja. Anúncio de luaus e encontros na praia. Distraída com os recados, a repórter é subitamente abraçada por um fiel de cada lado. E, à medida que a música acelera, pula por inércia, abraçada aos tatuados que saltitam de um lado para o outro, como numa grande micareta que mistura pratos da bateria, votos de aleluia e gritinhos de uhuuuuu.

- Tira o pé do chão! – ordena a pastora, sacudindo a saia com padronagem de ondas. – Vá pegar onda e convocar outros fiéis. Porque muitos de vocês serão louvados profetas. Porque o aleijado vai chegar aqui e sair pulando. E você jamais terá vergonha de espalhar a palavra enquanto pega onda.

 
 
 
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