|
| Fotos de Vivian Rangel |  |  | Modernidade: a prancha é o púlpito |  |
|
|
| Esqueça a imagem da crente de saias longas, Bíblia na mão e vocabulário
arcaico. Na Bola de Neve Church, os brothers tatuados, bronzeados e parafinados
passam a noite entre o rock e o reggae, dropando
com Jesus. De frente para a praia da Barra da Tijuca, no Rio, os surfistas
convertidos contam como deixaram para trás o álcool, a erva maldita e as
noitadas em nome de Jesus. Ouvem atentos os ensinamentos da pastora, que apóia
sua Bíblia numa longboard usada como púlpito. No culto, pulam, abraçam-se, oram
em línguas desconhecidas e atingem o clímax ao testemunhar uma chuva de ouro.
A orla da Miami carioca já está quase deserta às 19h de um domingo de
verão. O dono do quiosque em frente ao templo observa, inconformado, os
engradados de cerveja. Sem disposição para conversa, conta que há quase dois
anos vê o templo lotado aos domingos, mas amarga a falta de clientes. E encerra
o papo dizendo que respeita os fiéis abstêmios, “cada um na sua né?”. Mas
desabafa:
- Tanto carro importado ai na frente. E eu não vendo nem coca-cola.
Os solos de guitarra e a empolgação dos fiéis, que cantam com a ajuda de
um telão de videokê, indicam que o culto está começando. Subo as escadas atrás
de uma loura alta de calça jeans justa, salto de oncinha e perfume francês. Procuro
a última fileira, onde uma adolescente entediada balança o All Star e lança
olhares de fúria para a mãe. São exceções. Os jovens do lugar vestem surf wear,
choram, sacodem os braços, oram em posição muçulmana ou ajoelham-se,
circunspectos, deixando à mostra tatuagens na altura do cofrinho. Dezenas de
meninas exibem golfinhos e outros animais marinhos pouco acima do derrière. Também
não faltam escritos com o lema da igreja, em inglês: “In Jesus we trust”. Tento
parecer invisível, mas um dos jovens não resiste e segura minha mão enquanto
ora de olhos fechados. Sou uma das ovelhas perdidas da noite, e não faltarão
fiéis dispostos a acolher a descrente.
"Precisamos evangelizar até o poste"
|  |  | Pastora em ação: Sai, Nosferatu! |  |
|
|
| Às boas-vindas, sucedem-se notícias sobre o sucesso da igreja, fundada há
sete anos, que já soma 20 mil fiéis pelo litoral brasileiros. A Bola de Neve
tem sedes de norte a sul do país, em cidades como Itacaré (BA), Guarujá (SP) e
Blumenau (SC). É o início do show da pastora: uma mistura de stand up comedy,
herança gospel e oratória dos milagres. Falando com sotaque paulista diante do
rebanho carioca, discursa sobre baladas
para minas e bros sem causar incômodo. Nem mesmo
quando condena as noitadas, o álcool, as pegações e, principalmente, os
preguiçosos que têm vergonha de evangelizar em todos os lugares.
Empolgada, a pastora exalta a divulgação da palavra num programa de TV
comandado pela ex-modelo Luciana Gimenez, famosa por ter procriado com o stone
Mick Jagger.
- Temos chamadas no Superpop e nosso site está bombando! O evangelismo
mais eficaz hoje é a mídia. Mas ninguém pode ficar parado, não pode ter
vergonha de dizer que é crente. É preciso pregar enquanto pega onda, na
faculdade e em casa. Precisamos evangelizar até o poste! - conclama.
A igreja pára quando um fiel atrasado atravessa as fileiras e arranca
risos da pastora. Ele é a síntese dos fiéis: bermudão, óculos escuros, chinelos
arrastando. Sem constrangimento, como se estivesse chegando a uma festa, aperta
as mãos dos amigos antes de sentar. Mas a seriedade volta com as perguntas
sobre os problemas dos fiéis.
- Quem tá encalhada aí? Quem tá traindo, quem tá desempregado? Quem tá
com o filho doente, com familiares na bebida, nas drogas? - pergunta a
pastrora.
"Acaba com o
Nosferatuuuu!"
|  |  | Arte sacra: golfinhos de Jesus |  |
|
|
| Todos os presentes parecem assentir a pelo menos um dos transtornos. O remédio
é fé na igreja, fé em Jesus e disposição para espalhar a palavra do senhor. Como
prova, um casal sobe ao palco para dar o testemunho da mudança. São novos
protagonistas da clássica cena da TV: “Agora que encontrei Jesus, estou longe
das drogas, casado, com família feliz e finanças em dia”.
Com a promessa da salvação sacramentada – e sem essa de reino divino,
porque a felicidade deve surgir ainda na terra – chega a hora do dízimo. Assistentes
louras e bronzeadas organizam as filas e quase todos abrem a carteira.
- O valor do dízimo está claro no nome e na Bíblia. Dez por cento, em
tempos gordos e magros. Deus sabe quem está burlando as regras.
Depois da advertência, o apelo:
- Get the fire! Para Deus enviar os negócios ao Pai! A cura aos pacientes!
O fim das misérias! O fim do ataque do Diabo! Arranca o poder do diabo! Arranca,
arranca, acaba com o Nosferatuuuu!
A hora da chuva de ouro
|  |  | Bola Music: Rodolfo, popstar convertido |  |
|
|
| Assustado o Nosferatu, recolhido o dinheiro e lido o evangelho, quando começaria
a cerimônia do pão? Para colocar ordem na música e nos gritos, a pastora sopra
uma espécie de berrante – que uma consultora evangélica esclarece ser um
chofar, instrumento usado pelos judeus para chamar a glória de Deus. O chamado
tem motivo: é hora da chuva de ouro.
O relato é sobre a última vez em que o fenômeno aconteceu, num congresso
evangélico. O pó de ouro, garante a pastora, cai em todos os lugares. Mais do
que isso: a transmutação atinge a todos os metais. Relógios e jóias prateadas
ganham banho dourado. Obturações novas brotam como pepitas. Com um grito, ela
recebe o primeiro fiel que vê a palma das mãos douradas, um sinal de que a
filial carioca da Bola de neve foi agraciada pelo fenômeno da douração. Em
frente ao palco, o jovem supostamente dourado chora. Ao lado, uma menina em
transe confere os anéis a cada minuto. Frustrada, não controla as lágrimas ao
ver que o prateado continua prateado. Uma das encalhadas do início do culto vê
nos dedos a certeza do milagre do ouro, mas as amigas não conseguem enxergar o
brilho. Não há vacilo na fé: só vê quem acredita. E ela não se move quando a
pastora convoca a fila dos incrédulos.
- Como pode a boca do pobre ficar cheia de ouro? Aqui na frente há um
menino totalmente dourado. Vocês que não acreditam venham ver o menino
abençoado. Seu cabelo e suas mãos estão repletos de ouro. Vocês que freqüentam
o culto mas não crêem com o coração, levantem-se! Deus está neste lugar!
Levanto mais que depressa e assumo a vergonha de ser descrente. O grupo
dos incrédulos é modesto, mas o empurra-empurra é grande para ver o jovem de
perto. O menino está repleto de glitter multicor nos cabelos, e sua visão
provoca gritos, choros, abraços e estupefação. Ninguém ousa duvidar que o pó
brilhante seja menos que ouro em pó.
Na saída, um reggae incidental
A menina dos anéis prateados chora com a cabeça entre os joelhos. Uma
mistura de gritos, murmúrios, uivos e balbuciar desconexo ensurdece a igreja: é
a hora do falar em línguas. De olhos fechados e em silêncio, fiéis esperam
mensagens no alfabeto dos anjos. É o ápice do culto: chuva de ouro e promessas
em mensagens cifradas.
O som do chofar encerra as orações depois de três horas e quinze
minutos. A banda começa um reggae incidental para as despedidas. Recados sobre
novas células e futuros encontros. Parabéns para uma ovelha que faz aniversário
e trouxe bolo para a igreja. Anúncio de luaus e encontros na praia. Distraída
com os recados, a repórter é subitamente abraçada por um fiel de cada lado. E,
à medida que a música acelera, pula por inércia, abraçada aos tatuados que
saltitam de um lado para o outro, como numa grande micareta que mistura pratos
da bateria, votos de aleluia e gritinhos de uhuuuuu.
- Tira o pé do chão! – ordena a pastora, sacudindo a saia com padronagem
de ondas. – Vá pegar onda e convocar outros fiéis. Porque muitos de vocês serão
louvados profetas. Porque o aleijado vai chegar aqui e sair pulando. E você
jamais terá vergonha de espalhar a palavra enquanto pega onda.
|