BRASIL
Maratona etílica
29/01/2007
PEDRO SCHPREJER
FOTOS DE RONY MALTZ
Concentração no Belmonte: vai começar!
Sábado, 27 de janeiro, Leblon, bairro nobre do Rio. Cem competidores aguardam o início da disputa. Os organizadores distribuem camisas e números de identificação. Dão as últimas instruções: homens devem beber 42 chopes; mulheres, 21. Quem for visto jogando sequer um gole fora está eliminado. "E não adianta chorar”, avisa Gustavo F, idealizador da competição. A Segunda Baratona Internacional do Rio de Janeiro – a maratona dos bares – está prestes a começar.

Os atletas do copo se preparam para enfrentar uma batalha etílica: uns se concentram, outros bebem água e comem alimentos doces ou carregados de azeite para preparar o estômago, prestes a receber litros e litros de chope. O cortejo seguirá pelas ruas do bairro, passando por oito bares. Para manter a animação de pinguços e simpatizantes, foi contratada uma bateria de escola de samba.

É carnaval: banda anima a largada
A Baratona foi criada no ano passado, com cerca de 30 participantes, para comemorar o aniversário de Gustavo F. A competição cresceu na proporção da barriga dos favoritos ao título: agora são 75 homens e 25 mulheres. A maioria tem entre 25 e 30 anos e trabalha no mercado financeiro, razão pela qual muitos não querem ter o nome citado na reportagem. "Quem colocaria dinheiro na mão de um investidor que bebe 42 chopes num dia? Isso seria loucura", explica-se um "anônimo".


Para se inscrever, os competidores pagaram R$ 150. A quantia inclui tudo o que se vai beber, uma camisa oficial e um DVD com os melhores e piores momentos da Baratona. Segundo a organização, o dinheiro que sobrar será remetido para os Alcoólicos Anônimos.

"Quarenta e dois é moleza"

Controle rígido: um X por chope
Guilherme Camunga e os irmãos Felipe e Guilherme Kling são advogados e vieram de Petrópolis para o desafio. Indicado pelos amigos como um dos favoritos ao título, Camunga se diz confiante: "Quarenta e dois é moleza". A mulher só o deixou descer a serra depois da intervenção dos amigos. Para a própria segurança, os três petropolitanos trouxeram com eles Marcelo Samu, convocado para dirigir o carro e não deixar que os amigos percam as estribeiras. "Sou o piloto da ambulância", brinca Samu, que acabaria tendo que convencer um dos camaradas a descer de uma árvore depois do chope nº 30.

A largada é dada às 14 horas. Em duas filas, os atletas esperam o primeiro copo. Para contabilizar quanto cada participante ingeriu e controlar a distribuição dos chopes, foram chamados amigos que não bebem ou não querem beber e estagiários dos organizadores. Recebido o copo, o fiscal assinala um x a mais na camisa do pinguço. O controle é tão rígido como o de um banco.

Na fila: investidores de risco
Na primeira Baratona, os fiscais se cansaram e abandonaram o trabalho. Os gatos pingados que resistiam bravamente "lá pelo chope 35", foram declarados campeões. Há controvérsias, porém: num ato de bravura, o advogado Eduardo Rossi teria continuado, sozinho, o percurso dos bares. Chegou a ter a sua fotografia – vestido de padre irlandês – publicada no Jornal do Brasil. Na época, Eduardo trabalhava para o BNDES e a reportagem que narrava o seu feito acabou no clipping da assessoria de imprensa, ao lado de notícias sobre financiamentos de casas populares e empréstimos do governo. "Cheguei a dar autógrafos no elevador", gaba-se o autoproclamado ex-campeão, que afirma estar rumo ao bi-campeonato.

A jornalista M
ila Chaseliov é apontada como uma forte candidata ao título feminino. "Venho me preparando ao longo de minha vida para este tipo de torneios", revela. A engenheira Heloisa Cunha veio de Curitiba a trabalho e resolveu participar. Ana Paula Franco, sua amiga, afirma ter começado a beber há apenas uma semana: "Acho que descobri minha vocação". As duas trouxeram a "técnica" Ana Leitão, responsável por fornecer garrafas d`água.

"Aqui tem muita gente de sobrenome"

O PM tenta liberar a rua. Não dá certo
Em matéria de equipe de apoio, ninguém supera Carolina Cury, que conta com um cardiologista, seu pai, para administrar o rendimento na competição. Sentado num dos bares do cortejo ébrio, Celso Cury orienta a filha pelo celular, informando quando beber água ou comer doces. A preparação começou dias antes, com um regime elaborado pelo pai. "Não estou aqui para incentivar o alcoolismo. Quero que minha filha brinque, mas de maneira saudável", discursa o doutor, que promete representar a terceira idade na Baratona 2008.


Às 17h20, é servido o décimo chope. A distribuição é lenta, e alguns participantes começam a reclamar. Um pequena multidão acompanha a disputa, ocupando parcialmente uma das pistas da Av. General San Martin. Um grupo de jovens utiliza cones de asfalto para fechar a pista. A polícia é chamada e tenta convencer os bebuns a voltarem para a calçada. Dois rapazes de roupões e pantufas discutem com um policial. Em seguida, um terceiro se aproxima, dirigindo-se ao representante da lei: “Você sabe que aqui tem muita gente de sobrenome, né?”

Paulo e o amendoim: 40 saquinhos
Quando os competidores chegam ao chope 15, por volta das 19h, alguns começam a arriscar palpites sobre o possível campeão. O mais cotado na bolsa de apostas é Fred Miúdo, um homem com porte de bom bebedor, logo apelidado de Homer pelos rivais. Cerveja combina com petisco, e o ambulante Paulo Barbosa faturou bem neste sábado de sol: vendeu 40 pacotinhos de amendoim ("Um é dois, três é cinco"). Perguntado se conseguiria tomar 42 chopes em um dia, ele fica sério: "Você acha que eu tenho dinheiro para isso?"


Chegar ao fim vira questão de honra

De repente, começa um empurra-empurra no bar Garota do Leblon. A outrora metódica organização já não consegue controlar os impulsos primitivos das 100 pessoas que se espremem em busca do décimo oitavo copo. "Isso não é Maracanã", grita alguém. Os fiscais, que se apresentam como "staff", perdem o controle da situação. Um surge com uma espécie de tubo de mais de um metro de comprimento cheio de cerveja, botando quase tudo goela abaixo. A multidão vibra com o exibicionismo transgressor do juiz. No caos, um dos competidores, Rafael Amaral, assume o poder num fulminante "golpe de Estado". De posse da cartela que registra quanto cada um já bebeu, tenta reorganizar a fila. Em vão.


Depois do trigésimo quinto chope, no oitavo bar, a contabilidade já foi para a China. Chove, e muitos começam a debandar; outros seguem na disputa, determinados a vencer. A competição, porém, já não existe: os juizes estão completamente bêbados e não conseguem mais contar os chopes. Mas alguns, por uma questão de honra, permanecem determinados a chegar ao número 42.

Por volta de 1h, cinco pinguços conseguem atingir a marca histórica de 43 copos - cerca de 13 litros de chope entornados. Fred Miúdo e Guilherme Camunga estão entre eles. Na competição feminina, Mila Chaseliov prova que a dedicação aos bares ao longo da vida dá resultados, erguendo e esvaziando o caneco número 23. Os heróis da Baratona terminam a noite sem prêmios ou torcida comemorando. Levarão para casa apenas a sensação do dever cumprido e a promessa de uma ressaca sem tamanho no dia seguinte.

 
 
 
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