BRASIL
Chama a síndica!
13/08/2009
MONIQUE CARDOSO

FOTOS DE FERNANDO SOUZA
PORTARIA. Síndica é implacável e caprichosa
É preciso uma boa dose de paciência para por ordem na portaria, controlar as contas, cuidar de vazamentos e infiltrações, saber se o latido do cachorro de um faz chorar o bebê do outro, cobrar quem não paga o condomínio em dia. E num edifício, a principal conquista de um síndico é o respeito dos vizinhos. No caso do Kanvas, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Jane Di Castro se saiu tão bem na função que os moradores já a reelegeram três vezes. Nada de inusitado, se ela, além de atriz, cantora, empresária e cabeleireira, não fosse... um travesti. "Sou síndica há quatro anos. Quero sair, porque dá muito trabalho. Mas ninguém deixa!", diz, sem esconder o orgulho.

Moradora do prédio há mais de 15 anos, Jane sempre esteve muito ocupada com shows no Brasil e nos Estados Unidos, mas tentava não perder as reuniões de condomínio, dando pitacos em tudo e sugerindo soluções criativas - e o melhor, baratas - para resolver problemas cotidianos. Muita gente costumava torcer o nariz, mas as ideias eram bem recebidas. Até que, num desses encontros, decidiram insistir para que Jane se candidatasse.

"Gay tem bom gosto, né? Quando propuseram que eu fosse síndica, não achei que fosse dar muito certo, porque eu já tinha tanta coisa para fazer... Mas tenho apartamento no prédio, meu salão fica na sobreloja. Era mais uma maneira de cuidar do patrimônio", explica.

"Nossa portaria não fazia jus ao quartier"

Alçada ao poder, Jane começou pela portaria. Como não havia muito dinheiro em caixa e sobravam inadimplentes, achou que uma repaginada na entrada já melhoraria o aspecto geral do prédio. Recorreu a um amigo para conseguir uns quadros; com outro, especialista em arranjos para festas, conseguiu umas flores. Uma mesa para o porteiro e um sofazinho no hall tornaram o ambiente mais simpático.

"Comecei clareando a portaria e os corredores de todos os andares. O nome do prédio era pintado como um decalque, uma coisa tão pobre... Mandei escrever com letras de bronze", conta, orgulhosa. "Nós moramos em frente ao Copacabana Palace. Aqui não é a entrada de fundos, é a segunda frente do Copa. E a nossa portaria não fazia jus ao nosso quartier".

Com 12 andares e 78 apartamentos, o lugar precisava, segundo a síndica, de um choque de ordem. E ela assumiu a tarefa, comandando o prédio de salto alto - muitas vezes vertiginoso - mas com pulso firme. Dos funcionários, exige uniforme, unhas e sapatos limpíssimos, cabelos cortados e postura respeitosa diante dos moradores. Não abre mão do silêncio depois das 22h, acabou com as sacolinhas de lixo deixadas nas escadas, passou a fazer limpeza das caixas d`água com frequência, proibiu que pendurassem coisas para fora das janelas e proibiu a circulação de cachorros sem focinheira. Delicadamente, explica a todos as regras de convivência.

"Cuido do prédio como da minha própria casa. Sabe uma coisa que não admito? Elevador parado. Não há algo que me irrite mais que isso", discursa. "Sou rígida, mas trato todo mundo com carinho e delicadeza. Tudo que preciso pedir, peço direito. Síndico tem de ser amigo dos condôminos. Só não admito abuso. Comigo os mal educados não têm vez".

Estreia nos palcos com Rogéria e Laura de Vison

POSE. Nos corredores
Jane não é daquelas que se metem em toda briga de vizinhos. E já entendeu que uma bronca, além de desgastá-la, vale menos que uma boa multa. "As pessoas precisam ter bom senso, e isso começa com a minha postura, que precisa ser exemplar. Se alguém está sendo muito incomodado por outro morador, eu ligo, mando uma cartinha, converso, explico que houve reclamações e tento resolver. Se não der resultado depois da terceira tentativa, aplico uma multa. Pronto. Dói no bolso e a pessoa para", diz ela, que também precisa lidar com os turistas que levam garotas de programa para apartamentos de temporada. "Eles acham que podem vir aqui e fazer qualquer coisa, mas o nosso prédio é familiar".

Jane Di Castro começou a carreira no histórico show Les Girls, que estreou em 1964 na boate Stop e do qual fizeram parte nomes como Laura de Vison e Rogéria. Nos anos 80, foi estrela do espetáculo Passando batom, com direção de Ney Latorraca. Mais recentemente, do sucesso Divinas Divas. Vive dando pinta em novelas, às vezes no papel de si mesma. O ritmo já não é o mesmo, mas shows com transformistas continuam a ser atração imperdível em cidades fora do eixo Rio-São Paulo. No salão, muitas clientes só aceitam ser atendidas por ela. Apesar de tanta procura, ela garante encontrar tempo para as tarefas do condomínio. 

"Meu horário é determinado. Não sou síndica 24 horas por dia. Depois das sete, eu me recolho ao meu apartamento e os porteiros têm ordem de não me incomodar, a não ser que seja uma emergência realmente grave. Para isso há o livro de ocorrências", diz ela. "A única coisa que realmente atrapalha é a inadimplência. Antigamente, as multas eram de 20%. Hoje a lei só permite que se cobre 2%. É muito pouco. As pessoas abusam, esquecem que o condomínio tem contas".

"Preciso até de tomar conta da vida sexual dos outros"

Ela consegue manter a pose até nas situações mais constrangedoras, como diante de casais que têm noites muito animadas - e barulhentas. Diz que o segredo é ser discreta e levar na esportiva. "Às vezes a gente precisa até de tomar conta da vida sexual dos outros. Morro de vergonha. Mas se chega a incomodar, fazer o que? Eu interfono e digo para maneirarem, porque alguns vizinhos têm sono leve..."

Volta e meia, Jane é chamada para cantar o Hino Nacional do alto do trio elétrico da Parada Gay que toma conta da Praia de Copacabana, uma vez por ano. Apesar das credenciais, ela quase não menciona a palavra preconceito.

"Quando me escolheram pela primeira vez, me senti muito bem. Vi que as pessoas não me discriminavam por ser travesti, ou o que eu sou, tenha o nome que tiver. Mas sei que devo isso ao meu comportamento e à minha dignidade. Sou uma artista. Para a maior parte das pessoas, travesti é sinônimo de prostituta e marginal. Um ou outro que torcia o nariz teve de admitir que sou uma boa administradora, e isso basta".

O dia em que o vizinho infartou

ESTRELA. Pela autoestima do prédio
Mas o Kansas não chega a ser um oásis de civilidade. Embora seja querida pelos condôminos, Jane já sofreu um grande revés. No ano passado, justamente durante a eleição, um morador que havia decidido concorrer se descontrolou e resolveu atacá-la verbalmente. Xingou, falou que ela era uma aberração e que não admitiria mais um travesti no comando do prédio. Ficou tão alterado que sofreu um infarto e morreu ali mesmo. Jane faz uma longa pausa para comentar o caso.

"Preconceito é uma doença que não tem cura. Este senhor era um homofóbico. Ele não aguentou perder a eleição para mim. Teve um ataque tão forte que morreu antes mesmo que a ambulância pudesse chegar", conta. "E você acredita que perdi uma gravação do "Toma lá, dá cá" por causa dele?"

Vaidosa, Jane é vista circulando pelos corredores sempre impecável. Tira de letra problemas como serviços mal feitos, rede de esgoto entupida. Ela diz que, nesses momentos, é como se reassumisse seu nome de batismo, Luiz de Castro. "Eu me visto de mulher, mas não sou mulher. Sou homem. Meu interior é muito masculino. Uso esse meu lado e mando brasa", diz, antes de prometer uma volta aos palcos. "Levanta a moral do pessoal ter uma síndica que está em cartaz no teatro, que aparece na televisão. Todo mundo se orgulha".

 
 
 
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