BRASIL
Dilemas do progresso
18/07/2006
Tiago Carvalho

Tiago Carvalho
Na Tiradentes, só reformaram as esculturas
Onze da noite, Avenida Mem de Sá, Centro do Rio. Na penumbra em frente ao Hotel Novo Mundo, há um fauno de minissaia verde-limão. Luana Muniz é líder comunitária dos cerca de cem travestis que se prostituem na calçada da avenida, entre as ruas Augusto Severo e Gomes Freire. A galopante sofisticação da Lapa e a recente mudança de público do antigo bairro boêmio não parecem assustar Luana, 36 anos de calçada, nem suas meninas.

No fim da década de 90, quando o engarrafamento humano começou a tomar a Lapa nas noites de sexta-feira, Luana foi responsável pelo pacto de boa vizinhança firmado entre moradores do bairro e travestis. Colheu reclamações de ambos os lados em nome da convivência pacífica. Se a população trans se indignava com insultos constantes e ovos, pilhas e outros projéteis atirados dos edifícios, os moradores não toleravam o consumo de drogas, a nudez, as brigas e as voluptuosas cenas de sexo protagonizadas pelas meninas no meio da rua. Os dois lados cederam e hoje convivem em relativa harmonia.

Luana, que se diz "um travesti extremamente conservador", vê com naturalidade a construção de um moderno condomínio residencial na Rua Riachuelo, iniciada em maio. Os 688 apartamentos, vendidos em apenas um dia, custaram entre 80 e 140 mil reais e vão abrigar dois mil abastados novos moradores. "Temos que aprender a nos respeitar mutuamente. Todo mundo tem direito de aproveitar a renovação do Centro. Hoje, se um comerciante qualquer acha que a proximidade de algum ponto de travesti está atrapalhando o negócio dele ou vice-versa, nós sentamos pra conversar e tentamos encontrar um denominador comum", explica. "O que a gente não quer é desrespeito. Se eu digo pra um rapaz 'Ei gatinho, vamos gozar?', ele tem todo o direito de passar reto, mas não tem o direito de me insultar. Se ele quiser vir comigo, muito bem. Se não quiser, também não tem problema. Eu estou trabalhando e ele está cuidando da vida dele".

Isso não quer dizer, porém, que o trabalho de Luana e a vida de seu hipotético rapaz de classe média não se cruzem jamais. Muito pelo contrário. Não é raro esbarrar por ali com um garotão bem vestido, bem falante e bem de vida levando pela mão outro garotão, de meia arrastão, peitos enormes e botas de cano longo para um dos pequenos hotéis da área.

"E se a gente quiser ser puta?"

 

Tiago Carvalho
Majorie: travestis sonham com lucros
Majorie Marchi, presidente da Associação de Travestis e Transgêneros do Rio de Janeiro, conta que a chegada de uma clientela de maior poder aquisitivo à Lapa beneficiou os travestis em mais de um sentido. Majorie, de 31 anos, prostituiu-se até 1993 na calçada da Mem de Sá. Conta que a região, além de mais lucrativa, ficou muito mais segura. "No fim dos anos 80, a Lapa era um lugar terrível, muito perigoso. Hoje, por conta da garotada de classe média e dos bares que abriram, o lugar está muito mais iluminado e movimentado e, portanto, muito mais seguro pra todo mundo", afirma.

Empreendimentos imobiliários também devem mudar a cara da Praça Tiradentes, não muito distante dos domínios das meninas de Luana. Até o fim do ano, dois grandes hotéis estarão em funcionamento nos arredores. São os primeiros investimentos atraídos pelo projeto de revitalização da Praça Tiradentes, desenvolvido pela prefeitura em parceria com o Ministério da Cultura. A iniciativa prevê restauração de imóveis públicos e privados, melhoria da iluminação e dos serviços de limpeza urbana e remoção dos pontos de ônibus. Também estão nos planos um calendário permanente de shows, peças e desfiles de blocos de carnaval. O Projeto Tiradentes, em andamento desde 2002, pretende ainda abrir linhas de financiamento para reforma e compra de imóveis na área.

A arquiteta que coordenou os quatro primeiros anos de trabalho, Cristina Lodi, conta que todos os atores sociais da região foram chamados a contribuir com a elaboração e a implementação do plano de trabalho. "Conversamos com comerciantes, prostitutas e moradores. Tentamos deixar claro que não pretendemos expulsar ninguém e que o Projeto Tiradentes é, na verdade, um projeto de inclusão social", diz.

Inclusão social, entretanto, não tinha o mesmo significado para as prostitutas da região. Gabriela Leite, diretora da ONG Davida, que reúne as profissionais do sexo que trabalham na praça, conta que houve resistência à proposta de revitalização feita pela prefeitura. "Ficamos desconfiadas. Sempre que há um processo de revitalização, a tendência é a expulsão das prostitutas. O pessoal do projeto nos procurou em 2002 e ofereceu vários cursos de qualificação para outras profissões. Não perguntaram se nós queríamos continuar a ser prostitutas, mas numa praça revitalizada, reurbanizada e melhor pra todo mundo", queixa-se Gabriela, ex-prostituta e socióloga. "Depois apresentamos nossas reinvidicações à prefeitura e começamos a trabalhar ativamente pela revitalização da praça", conta.

Ela reclama, entretanto, da lentidão no andamento das obras e da interrupção das atividades culturais organizadas pela coordenação do projeto. "A praça continua imunda e mal iluminada", reclama. De fato, dentre todas as modificações planejadas, apenas a restauração das esculturas foi concluída até agora, e o calendário cultural não durou mais do que poucos meses em 2005. Gabriela diz que a maior parte das atividades culturais que acontecem hoje são iniciativas da Davida. As prostitutas movimentam a região com os desfiles de moda da grife Daspu, apresentações musicais das Mulheres Seresteiras e da peça teatral Cabaré Davida. "Estamos fazendo nossa parte porque a revitalização nos interessa. Queremos viver e trabalhar num lugar melhor", diz.

Progresso ou elitismo?

 

Tiago Carvalho
Bar fechado na Riachuelo: nova freguesia
Mas a renovação do Centro também faz suas vítimas. Ângela Gonçalves foi, por cinco anos, dona do Spring Lanches, bar que funcionou no número 49 da Riachuelo até maio, quando fechou as portas para reabrir sob novos nome e direção. Desde o começo de julho, a sofisticada cachaçaria Cachaça Esporte Clube funciona no endereço onde ela e o marido trabalharam anos a fio.

Sentada numa das mesas do restaurante de comida a quilo que abriu na Rua da Quitanda com o dinheiro arrecadado na venda do Spring, com os cabelos desgrenhados e o vestido amarfanhado de quem teve um dia duro de trabalho, Ângela conta que ela e o marido sentiram no bolso, nos últimos meses de trabalho no bar, a mudança de perfil do freqüentador da Lapa. À luz fluorescente do Spring, já não se sentava tanta gente. Menos fregueses se arriscavam nos minúsculos banheiros, tão pequenos quanto asquerosos, e a cerveja invariavelmente morna e barata já não descia goela abaixo das centenas de pessoas que se sentavam nas cadeiras e mesas de plástico pra jogar conversa fora. Somem-se a isso dívidas com o fisco e o cansaço do casal e, voilà, passaram o ponto.

"Tem que ter dinheiro pra entrar numa casa de shows dessas que abriram agora. O pessoal que ficava pela rua batendo papo e bebendo hoje não fica mais. Não tem mais aquele engarrafamento de gente na rua", diz Ângela. Ela relembra os bons tempos em que chegou a vender 150 caixas de cerveja num dia e, entre a lucidez de quem tem experiência no ramo e a miopia de quem não quer admitir o fracasso, faz um diagnóstico preciso das transformações que tomaram o Centro de assalto nos últimos três anos: "O negócio é que, por aqui, tem cada dia menos lugar para o pobre".

 
 
 
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